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Fazer jornalismo pode "dar cana" no Brasil dos sonhos de Bolsonaro e cia


Em março de 2017, o jornalista Eduardo Guimarães foi levado coercitivamente para depor na superintendência da Polícia Federal, em São Paulo. O editor do Blog da Cidadania era pressionado a revelar quem vazou a ele dados sigilosos de uma operação da PF contra Lula, em 2016.

Foto: Divulgação / BLITZ AMAZÔNICO

Durante a condução, a defesa de Guimarães descobriu que seu sigilo telemático (a comunicação por e-mail) havia sido quebrado por determinação do então juiz Sergio Moro. Pouca gente se mobilizou, mas a ação quebrava também o direito ao sigilo de fonte de um profissional. O argumento de Moro era que Guimarães não era jornalista – logo, a lei não valia para ele.

O episódio mostrava um dos muitos avanços de uma risca importante sobre os direitos de um cidadão. Mostrava também que, em Curitiba, Moro atribuía a si o poder de definir o que era ou não jornalismo.

A prisão dos hackers de Araraquara, no interior paulista, acendeu o alerta sobre as inclinações autoritárias do amálgama Bolsonaro-Moro, que, em nome do combate a criminosos, parecem não observar regras constitucionais básicas ao usar o episódio para ameaçar de prisão o jornalista Glenn Greenwald e mostrar à classe política e jurídica quem tem poder de destruir ou não as provas obtidas pelo grupo.

Em sua coluna publicada na Folha e em O Globo no último domingo, Elio Gaspari lembrou de como o ofício jornalístico conseguiu, com base também em informações obtidas clandestinamente, mudar para melhor os parâmetros de investigação nos EUA – no caso dos “Papéis do Pentágono”, a ousadia de quem jogou luz sobre absurdos da guerra do Vietnã, guardados sob segredo nos porões, desmoralizou a narrativa oficial e acelerou a retirada das tropas no país asiático, poupando-se sabe-se-lá quantas vidas que poderiam ser abreviadas pela continuidade de uma luta estúpida.

A batalha para a divulgação das informações, que envolveu pressões psicológicas e ameaças legais de todo tipo, está em “The Post”, que concorreu ao Oscar de melhor filme em 2018.

Décadas depois, um rolo compressor ameaça atropelar quem publicou o material sob sigilo de fonte no Brasil. Ameaça também interromper uma série de revelações que não dizem respeito apenas ao futuro de condenados por corrupção, mas das próprias engrenagens da Justiça.

Bolsonaro pode não ter poder para colocar “em cana” nem Moro poderá deportar o mensageiro como desejam, numa tentativa de jogar a pá de cal sobre o teor das mensagens, mas a inclinação coloca novamente em teste o funcionamento das instituições jurídicas e políticas do país. Nos EUA, décadas atrás, prevaleceu o direito à informação. Aqui, o que pode sobrar é terra arrasada.

Agindo ou não, o peso do discurso já representa uma ameaça grave contra os jornalistas e quem mais divulgar o material de fonte anônima, podendo desencadear agressões e violências de todo tipo, não apenas no campo das ameaças. A hostilidade sobre o editor do Intercept se soma ao cala-boca, agora recorrente, das coletivas de imprensa, das calúnias contra Miriam Leitão e das ofensivas contra quem incomoda o governo praticando jornalismo.

A mesma postura desejante de sumir com quem o incomoda leva o mandatário a debochar dos mortos e desaparecidos da ditadura, como fez nesta segunda-feira ao falar sobre o pai do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz.

Resta saber onde estão as leis, se acima ou abaixo dos rompantes e desejos que inspiram e estimulam as agressões que já rompem o campo simbólico e ameaçam territórios e atividades que deveriam estar protegidos. 

Que o digam os índios wajãpi, no Amapá, vítimas de uma escalada retórica que inspira agressores a agirem como bem querem, sob a ilusão de que estão protegidos pelo discurso oficial que demoniza suas comunidades e defende a usurpação e exploração de suas terras para outros fins.

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