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O ciclo de morte anunciada da Amazônia e o desafio político do reflorestamento

Estima-se que cerca de 20% da área da Amazônia seja de floresta secundária, ou seja, de áreas de desmatamento em que a floresta se recuperou. Caso o desmatamento siga nessa intensidade nos próximos anos, a floresta pode chegar a um ponto em que as mudanças serão irreversíveis e se aproximar, cada vez mais, de um bioma como a savana africana.

A avaliação é de Ricardo Mello, diretor do Programa Amazônia da WWF, organização não governamental internacional que atua nas áreas de conservação, investigação e recuperação ambiental.

De acordo com Mello, em 2017, diante do Acordo de Paris, o Brasil se comprometeu a reflorestar 12 milhões de hectares até 2030. No entanto, políticas como o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa estão paralisadas devido às diretrizes do governo Bolsonaro para o meio ambiente.

Em entrevista ao HuffPost, o especialista explica que existem projetos de reflorestamento e restauração no bioma da Amazônia, mas que são estudos pontuais, cada um com sua a metodologia. Falta ainda uma política a longo prazo que estabeleça as regras para a recuperação da Floresta Amazônica.

Para Mello, o primeiro e mais importante passo nesse sentido é o fortalecimento e a implementação, de fato, do Código Florestal.

Leia os principais trechos da entrevista.

HuffPost Brasil: O que significa reflorestar a Amazônia?

RicardoMello: O uso de fogo é um processo que é historicamente utilizado no Brasil, até mesmo pelos povos tradicionais, como os indígenas.

Mas como isso funciona? Você queima uma parte da floresta para fazer um cultivo, cuida da plantação por um tempo e depois abandona a área após tirar a colheita, por exemplo. O processo de regeneração natural leva que a floresta cresça de novo na região, já que existia um banco de sementes no solo e elas começam a germinar. Com o tempo, a área volta a uma composição bem parecida com a floresta original. Mas isso demora décadas para que realmente volte a se parecer com a floresta. Esse é o processo de reflorestamento tradicional, que é utilizado pelos indígenas há milênios. Ou seja, você reduz a pegada humana nesse ciclo.

Mas o que acontece hoje em dia é muito diferente. A primeira coisa que precisamos levar em conta é que quando você queima uma área, você faz alguma coisa nela. Você queima e produz uma plantação por um ano, dois anos, depois faz pastagens etc. Com esse processo intenso de uso do solo, para você reflorestar essa área que foi desmatada há três ou quatro anos, essa restauração não acontece naturalmente. Já morreram as sementes da floresta original e você vai precisar colonizar esse solo. E ainda assim você não vai conseguir recuperar o nível de biodiversidade que tem a Amazônia. Ou seja, mesmo se restaurar com um processo participativo, em que há atuação do homem, é impossível que essas áreas desmatadas voltem ao estado nativo sobretudo pelo nível de uso do solo que já feito.

O que é preciso levar em conta na construção de um plano de reflorestamento na Amazônia?

É preciso levar em conta o custo da restauração. Se você decide pelo primeiro processo, de simplesmente abandonar a área e deixar a floresta se recompor, realmente, isso não tem muitos custos. Mas é ingenuidade pensar que isso aconteceria em nosso [atual] sistema produtivo. No mínimo, seria necessário um maior investimento em fiscalização para assegurar que as áreas estão sendo respeitadas.

Quando você fala de restauração de áreas que já foram desmatadas na Amazônia, primeiro você tem que pensar em nosso Código Florestal.

O código define os critérios de uso do solo. Quando uma propriedade tem uma área de reserva legal menor do que a prevista na legislação, você precisa ampliá-la, então, você planta mudas e faz que a floresta chegue mais perto do seu tamanho original.

Depois, você tem que reflorestar as APPs (Áreas de Proteção Ambiental), que geralmente são as áreas perto de rios e nascentes.

O reflorestamento é a melhor iniciativa para diminuir os impactos do desmatamento e das queimadas?

A grande dificuldade para esse processo de restauração é mesmo o interesse das pessoas. Quem desmatou tem interesse de usar a área para alguma atividade. 

Em 2017, o Brasil firmou compromisso no Acordo de Paris de restaurar 12 milhões de hectares de floresta. Foi criado o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), que previa o plantio de 390 mil hectares de mata em quatro anos.

Mas nos últimos seis meses todos os programas para isso foram descontinuados. Muito pouco se avançou nessa discussão.

A restauração, antes de tudo, está muito ligada ao fortalecimento do Código Florestal e das instituições que fiscalizam o meio ambiente. 

A legislação é clara: para cada cadastro de propriedade rural você precisa de um plano de adequação da propriedade visando à restauração. Se o proprietário tiver desmatado mais que o previsto, ele precisa ser fiscalizado e obrigado a por em prática o seu projeto de reflorestamento. 

Porém, a implementação do Código é muito lenta, e toda essa discussão que envolve restauração acaba sendo também muito lenta. É super-importante do ponto de vista ecológico. Mas pensar em restaurar é um desafio político enorme neste momento.







Estima-se que cerca de 20% da área da Amazônia seja de floresta secundária, ou seja, de áreas de desmatamento em que a floresta se recuperou. O quanto isso é significativo?

O sistema PRODES não detecta a área se estiver muito no começo da restauração. Mas depois, quando a floresta é percebida como em recomposição, o satélite identifica como área de floresta. A área restaurada é incorporada à área de floresta.

Essa taxa pode até parecer pequena, mas chegar a 20% de área desmatada significa dizer que a gente chegou em um ponto sem volta. Ou seja, as mudanças climáticas, e principalmente das chuvas, vão levar a floresta inteira a ficar cada vez mais seca, ou seja, mais suscetível a pegar fogo. E quanto mais ela pega fogo, maior a mortalidade da floresta e esse processo faz que ela se acabe por si só. Ela vai se tornando cada vez mais parecida como uma savana africana. Se a gente continuar desmatando nessa tendência, a floresta atinge o ponto de mudança, aí tudo que acontece é irreversível.







O desmatamento está concentrado na área conhecida como “o arco do desmatamento”. Nessa região, o desmatamento já atingiu uma área proporcional impressionante. Se você pegar um carro e dirigir até as capitais do arco do desmatamento, você não vê mata, só nas áreas protegidas. Tudo virou pasto. É um processo muito intenso; se continuarmos assim, a próxima geração não vai ter mais nada. É um ciclo de morte que está anunciada.

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