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Sócio da Yacows nega irregularidade no envio de mensagens nas eleições de 2018

Em depoimento na CPMI das Fake News, na tarde desta quarta-feira (19), o empresário Lindolfo Antônio Alves Neto, sócio-proprietário da Yacows, negou práticas ilícitas no envio de mensagens nas eleições de 2018. Segundo o requerimento do deputado Rui Falcão (PT-SP), a empresa é suspeita de utilizar dados fraudulentos, como nomes e CPFs sem autorização, para registro em aplicativos de mensagens e possibilitar o disparo em massa de informações falsas.

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News, que investiga a divulgação de notícias falsas nas redes sociais e assédio virtual, realiza oitiva.  Mesa: relatora da CPMI das Fake News, deputada Lídice da Mata (PSB-BA); presidente da CPMI das Fake News, senador Angelo Coronel (PSD-BA); sócio-proprietário da empresa Yacows, (depoente) Lindolfo Antônio Alves Neto, em pronunciamento.  Foto: Roque de Sá/Agência Senado
Foto: Divulgação / RDC

Lindolfo Alves Neto disse que não participa da parte operacional, mas fez uma apresentação sobre o funcionamento da empresa, explicando que a Yacows atua desde 2011 e presta serviço de transmissão de marketing direto. Com base em um vídeo exibido na comissão, Lindolfo Neto disse ser possível enviar mensagens sem o uso de cadastro de CPF.

— Não existe nenhum tipo de cadastro para receber as mensagens que enviamos — disse.
Eleições

Lindolfo Neto confirmou que, durante a campanha das eleições presidenciais de 2018, a Yacows foi contratada para prestar serviços de disparo de mensagens políticas. Ele citou a campanha do candidato Henrique Meirelles (MDB) e disse que uma agência que prestava serviços para Fernando Haddad (PT) também contratou os serviços da empresa.

O deputado Rui Falcão (PT-SP) informou que a empresa M. Romano foi a responsável pela comunicação da campanha de Haddad. Essa empresa subcontratou a Um por Todos, que por sua vez subcontratou a Yacows, para três disparos de mensagens. Segundo o deputado, tudo ocorreu dentro da lei, com prestação de contas aprovada pela Justiça Eleitoral.

Ao responder a Rui Falcão, Lindolfo Neto confirmou que a empresa AM4, que trabalhou para a campanha de Jair Bolsonaro (então no PSL), contratou os serviços da Yacows para o envio de 20 mil disparos. Segundo o sócio da Yacows, porém, foram usadas apenas cerca de 900 mensagens, para cerca de 900 destinatários. Lindolfo Neto acrescentou que a agência AM4 forneceu o cadastro de destinatários e destacou não se lembrar do conteúdo das mensagens.

Rui Falcão citou reportagem da Folha de S. Paulo que apontava que empresários bancaram campanha contra o PT, inclusive com o envio de mensagens com uso de informações falsas. Outra reportagem mostrou que foram apagados os dados do envio em massa, após a primeira publicação. Lindolfo Neto disse desconhecer a razão de os dados terem sido apagados.

Segundo Rui Falcão, a AM4 já negou na imprensa que tenha deletado o conteúdo das mensagens. Mais uma vez, Lindolfo Neto disse desconhecer quem apagou ou o que foi apagado. Ele negou que tenha feito serviços “por fora” para a AM4 e disse que pode entregar as documentações dos serviços e dos clientes relacionados à eleição de 2018, até mesmo com nomes de políticos.

A deputada Natália Bonavides (PT-RN) apresentou uma imagem de uma tela que seria de um computador de dentro da Yacows. Essa imagem mostra um texto que, segundo a deputada, é o mesmo de uma fake news contra o candidato Fernando Haddad, disseminada durante as eleições de 2018. Novamente, Lindolfo Neto disse desconhecer a imagem e voltou a negar o uso de envio de mensagens com informações falsas.

Questionado pelo deputado Carlos Jordy (PSL-RJ), Lindolfo Neto também negou que empresas tenham pago por serviços ilegais contra o PT, na época das eleições. Ao responder a deputada Caroline de Toni (PSL-SC), ele confirmou que a Yacows enviou mensagens em favor da campanha do deputado Rui Falcão. Ele ainda negou afinidade com o PT ou com candidatos pelo partido. O deputado Rui Falcão, por sua vez, disse que está com todos os documentos que comprovam a legalidade da contratação do serviço.

Hans River

O presidente da comissão, senador Angelo Coronel (PSD-BA), apresentou áudios e imagens entregues por Hans River, um ex-funcionário da Yacows, que depôs na semana passada na comissão. Segundo Hans River, a empresa usou de forma fraudulenta os CPFs de várias pessoas para viabilizar o envio de mensagens. Hans River ainda disse que o conteúdo da propaganda eleitoral era passado pelos sócios aos supervisores.

Lindolfo negou o uso irregular de CPFs e disse que desconhece esse tipo de procedimento em sua empresa. Segundo Lindolfo, o contratante do serviço faz um cadastro com o conteúdo e com o público que ele quer alcançar. Ele também disse que não distribuía conteúdo político para os funcionários, já que a empresa tem colaboradores e plataformas que trabalham com essa rotina. O empresário também afirmou desconhecer o uso de um cadastro de cerca de 10 mil dados de idosos, conforme dito por Hans River.

Segundo Lindolfo Neto, Hans River trabalhou por 38 dias na empresa e foi demitido por falhas operacionais. O segredo de Justiça sobre o processo trabalhista movido pelo ex-funcionário foi pedido como forma de preservar a empresa, diante de demandas da imprensa. Ele admitiu que a Yacows compra vários chips usados por uma questão econômica. Lindofo Neto ainda negou que a Yacows tivesse mais de 500 funcionários no período das eleições, da forma como foi dito por Hans River.

Relatora da comissão, a deputada Lídice da Mata (PSB-BA) lembrou que a empresa não está sendo investigada pela natureza do negócio, já que o disparo coletivo é permitido, desde que dentro da legalidade. A deputada disse não entender como é possível fazer os disparos de mensagem sem uso de CPF, conforme dito pelo sócio da Yacows. Ela ainda pediu uma maior fiscalização do poder público sobre as empresas que trabalham com disparo de mensagens.

— Está claro que esse modelo de negócio precisa de uma fiscalização mais apurada por parte das autoridades do país — declarou Lídice.

Na mesma linha, a deputada Luizianne Lins (PT-CE) lembrou que representantes das empresas de telefonia confirmaram na CPI que só é possível o envio de mensagens a partir de um cadastro de CPF.

Controvérsia

O início do depoimento foi marcado por uma controvérsia. O advogado José Caubi Diniz Júnior, representante do sócio da Yacows, explicou que, na condição de investigado, Lindolfo Alves Neto não pretendia produzir penas contra si. Diniz Júnior insistiu para que o convidado não prestasse o compromisso de dizer a verdade.

— Isso não quer dizer que ele não vá responder às perguntas. Ele pretende responder a todas as perguntas que forem feitas — disse o advogado.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) destacou o direito ao silêncio e pediu ao presidente Angelo Coronel para abrir mão do compromisso por parte do depoente. Depois de um momento de debate, Coronel concordou com a sugestão. Ao responder ao senador Jean Paul Prates (PT-RN), Lindolfo Neto voltou negar o uso de CPFs de terceiros. Por orientação do advogado, porém, ele se negou a informar o nome de empresas que contratam a Yacows e não autorizou a quebra de seus sigilos bancário e telemático. A decisão foi criticada pelo senador Angelo Coronel. 

— Não fiquei satisfeito com nada do que ele falou aqui hoje. Espero que, até o fim dos trabalhos, cheguemos à verdade — disse Coronel.

Em virtude do horário, Coronel anunciou o adiamento do depoimento de outra sócia da empresa Yacows, Flávia Alves. O senador disse que uma nova data para o depoimento será agendada e convocou uma nova reunião para o dia 3 de março, às 14h, quando serão ouvidos os sócios da empresa AM4.

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