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Política de redução de danos para as crianças na pandemia

Quando o mês de março se apresentou e com ele o desafio de nos trancarmos em casa para achatar a curva de contaminação pelo novo coronavírus, a maioria das pessoas estava convencida da necessidade da medida. As escolas fecharam as portas, as empresas entraram em home office, a gente começou a se planejar para sair o mínimo possível para evitar que o vírus se espalhasse e que as cenas que assistimos de mortes na Europa se repetissem por aqui. Não demorou nada e chegou a notícia do cancelamento das aulas do meu filho e lembro que, na sequência, deixei em casa um amiguinho dele que tinha passado o fim de semana com a gente. "Acho que eles vão ficar pelo menos uns dois meses sem ser ver", disse à mãe do menino. Eu não sabia de nada, a inocente.

Foto: Divulgação / BLITZ AMAZÔNICO

Seis meses já se passaram e a conta emocional desse período está altíssima. Perdi um cunhado e um vizinho para o coronavírus, não vejo o meu pai desde março, meu filho não vê os amigos pessoalmente desde março e só conseguimos nos encontrar com um dos meus enteados (que também não víamos desde março) porque desembolsamos uma quantia para fazer o PCR, exame que detecta o vírus causador da covid-19, para que o reencontro fosse feito em segurança. Com o passar do tempo meu filho começou a ter crises de ansiedade, de insônia e de choro. Dia desses reclamou que tinha "esquecido como era o mundo lá fora" - e é desesperador ouvir algo do tipo vindo de uma criança, alguém com menos ferramentas emocionais para lidar com essa privação de contato que estamos enfrentando há meses e que precisa da natureza e do 'lá fora' para se desenvolver.

E eu, tão ferrenha defensora do isolamento social, entrei na fase de redução de danos. Muitas mães e pais também optaram por abrir algumas exceções e flexibilizar a quarentena, em nome da saúde emocional e mental dos seus filhos. Por isso é cada vez mais comum ver fotos de crianças com (ou sem) máscaras em parques, pracinhas e praias. Se antes eu não topava risco nenhum, agora eu me vejo traçamos toda uma estratégia de guerra para que ele possa sair de casa por pelo menos alguns momentos e sentir o sol na pele, respirar o ar puro, caminhar. E aqui entramos em um terreno arenoso, onde os dedos podem ser apontados para mim e para outras mães e pais. Como uma pessoa que não tem dúvidas que só podemos sair dessa crise sanitária se houver um pacto coletivo de combate à curva de contaminação 'furou a quarentena'? Pois é. Talvez por não suportar mais ver meu filho chorando em frente ao computador, em crise e com saudade da vida de antes.

Especialistas já deram algumas respostas científicas para a flexibilização do isolamento social por pessoas conscientes da necessidade do recolhimento. O El País publicou uma matéria sobre o assunto e definiu esse paradoxo como 'fadiga da quarentena': os mecanismos do corpo humano entram em colapso depois de tanto tempo em alerta e deixamos de racionalizar. A gente até sabe que o 'lá fora' continua perigoso, mas não conseguimos mais nos manter trancados sem um respiro, principalmente se estamos fechados nos minúsculos apartamentos onde muitos de nós moramos, sobretudo se somos os cuidadores de uma ou mais crianças.

Claro que não vou levantar aqui a bandeira para que a gente esqueça que o número de mortes pelo coronavírus continua altíssimo assim como o de contaminação pelo SARS-CoV-2. Também não apoio a volta às aulas porque sei que é impossível controlar a aglomeração de crianças, principalmente as pequenas, e isso colocaria em risco a vida de muitas pessoas, como os avós que dividem casas com os netos e os educadores que têm alguma comorbidade como obesidade, diabetes ou hipertensão, porque está comprovado que com essas pessoas o coronavírus pode ser ainda mais cruel. Mas precisamos falar sobre a saúde mental dessas crianças apartadas da presença dos seus pares, retiradas à força dos parques e pracinhas e do convívio com a natureza. O que a gente pode fazer por elas?

Já pensamos e discutimos os impactos do coronavírus na economia, no mercado de trabalho, na saúde pública, e só agora começamos a discutir o apoio à saúde mental das crianças nesse período. Será que elas não teriam de ser prioridade na reocupação dos espaços públicos? Tenho um afilhado de três anos que já passou um sexto de sua vida trancado dentro de um apartamento de 80 metros quadrados e uma amiga que tem um bebê que nasceu em março e não conhece ninguém além dos próprios pais - ele nunca viu uma árvore, um passarinho ou outras crianças brincando em uma pracinha.

Eu acho que nesse momento da pandemia a gente tem que dar prioridade total as crianças. Como? Inicialmente não apontando o dedo para os pais que dão uma volta medrosa com eles de vez em quando, não com a mesma força com que se julga os adultos que se aglomeram em bares e shoppings porque "não aguentam mais" ficar trancados. A gente precisa abrir alas que as crianças querem passar, lutar para que os parques sejam só para elas aos fins de semana, elegê-las como prioridade a partir de agora. A receita eu não tenho, mas sei que precisamos colocá-las no topo da lista de preocupações, porque nossos filhos não aguentam mais e estão nos pedindo socorro em forma de insônia, lágrimas e crises de ansiedade.

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