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FAS realiza pesquisa para aprimorar atenção básica de saúde na Amazônia

A região amazônica abrange um acervo de plantas e práticas medicinais importantes para as populações locais, mas também enfrenta diversos gargalos na área da saúde como dificuldades logísticas, falta de medicamentos e de profissionais.

Foto: Divulgação / BLITZ AMAZÔNICO

Entender as particularidades e necessidades de comunidades ribeirinhas e indígenas é um dos primeiros passos para fundamentar soluções e auxiliar na formação dos principais atores da saúde no Amazonas. Essa é a proposta de uma pesquisa realizada com agentes de saúde e outros profissionais da área por meio do projeto “SUS na Floresta” da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em parceria com o Todos pela Saúde, iniciativa criada pelo Itaú Unibanco para combater a covid-19 e seus efeitos.

O objetivo é apresentar um documento sobre a atual situação do sistema de saúde do Amazonas e auxiliar na busca por alternativas para o interior do estado. Os estudos, realizados por meio da aplicação de questionários e de pesquisa documental, englobam quatro componentes: diagnóstico situacional, levantamento sobre medicina tradicional e hábitos alimentares, elaboração de guias de saúde ribeirinha e indígena, além de propostas de aprimoramento do marco legal da saúde.

Diagnóstico 

A consultora da FAS responsável pela equipe de pesquisa, Nathália Flores, explica que a proposta inicial é entrevistar profissionais da saúde de 26 municípios amazonenses, com foco em agentes comunitários de saúde (ACS) - que atuam nas comunidades onde residem e que são responsáveis pela prevenção local. “A principal ambição do componente é fortalecer uma voz de defesa, um advocacy a respeito da saúde para essas populações”, diz Nathália. Além de Nathália, a equipe de pesquisadoras é composta também pela antropóloga Roberta Cerri e pela nutricionista Juliana Licio.

O ACS Antônio Santos da Silva atua há 11 anos na comunidade Cachoeira do Castanho, no município de Iranduba/AM. Ao responder os questionários da pesquisa, Antônio afirma que a logística é um desafio. “O deslocamento é o principal problema para mim. Na seca, eu consigo ir tranquilo até as casas, mas quando o rio enche, a comunidade se divide em duas: para um lado tem que ir de moto e para o outro tem que ir de canoa, e isso dificulta muito as visitas [domiciliares]”.

No olhar da agente comunitária de saúde, Dilce dos Santos Mendes, da comunidade Saracá, a questão dos primeiros socorros é a mais urgente para ser resolvida. “Porque não adianta fazer um trabalho belíssimo de prevenção nas comunidades, se alguém adoece ou se acidenta, e não temos nem o básico para socorrê-la, como um posto de saúde ou os materiais e equipamentos necessários”.

Medicina tradicional e alimentação

Para o levantamento sobre medicina tradicional e alimentação, a pesquisadora Nathália explica: “Analisamos como eles utilizam as plantas da Amazônia e a ‘biofarmácia’ da floresta como alternativa de tratamento. Além disso, olhamos para a alimentação, porque a população tem abandonado os hábitos alimentares tradicionais e partido para um consumo de ultraprocessados, o que pode ter relação com o aumento de casos de diabetes, hipertensão e problemas cardíacos”. 

O ACS Antônio espera que a pesquisa ajude os profissionais da área a se aperfeiçoarem. “Acho que vão tirar muitas coisas boas para debater e colocar em prática, sabendo o que é melhor para ajudar a gente”. Em termos de plantas medicinais, ele já é um especialista: “Eu uso muita hortelã, japana e pinhão manso para tratar doenças na nossa área e isso ajuda muito o meu trabalho”.

Guias de saúde e legislação

A pesquisa também resultará em guias de saúde ribeirinha e saúde indígena, que servirão como ferramentas de trabalho para os agentes comunitários e indígenas, como pontua Nathália. “A ideia é que eles tenham essa ‘bússola’ para sistematizar dicas de práticas que eles já desenvolvem, mas que sejam direcionadas para que nenhuma família seja negligenciada, evitando ‘furos’ na saúde”.

Por fim, o aprimoramento do marco legal é um dos temas mais importantes que o SUS na Floresta pretende atingir. “Queremos entender quais ajustes legais precisam ser feitos para garantir a adaptação do serviço e uma ação de saúde a partir do arcabouço legal. Hoje, a lei determina algumas práticas para os profissionais de saúde, mas precisamos entender que a política constituída há 10 anos talvez precise ser revista e adaptada”, lembra a pesquisadora.

Para o coordenador do SUS na Floresta, Luiz Castro, realidades distintas em termos de saúde devem ser consideradas. “O trabalho de um ACS em um centro urbano pode até não ser tão fundamental em termos de primeiros socorros, mas quem mora em uma comunidade a três, quatro horas de viagem da cidade precisa ser capaz de ajudar alguém em um caso de urgência/emergência. Por isso, pretendemos levar propostas ao Congresso Nacional, câmaras municipais e assembleias legislativas para que esse trabalho seja adequado à realidade local”.

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